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09.02.17

Da Ericeira para as Mulheres de todo o Mundo, com muito Amor

Ontem foi um dia marcante na minha vida, um dia horrível, cheio de dor, que nunca irei esquecer. Ontem perdi um filho, sim, um embrião também é um filho por mais conceitos científicos que lhe queiram imputar, desde a concepção que estamos perante um filho, não me lixem.

 

Hoje estou tão triste quanto ontem mas sinto-me na obrigação de arranjar coragem e aqui vir de imediato deixar o meu testemunho:

 

Estava grávida de 10 semanas. Já não estou, tive um aborto espontâneo.

 

Enquanto me fazia a ecografia a médica olhava para o ecrã …, eu ansiosa que estivesse tudo bem esperava que me confirmasse isso mesmo, quando de olhos postos no ecrã disse: “não há batimentos cardíacos”…, fodasse, pensei. Eu estava ali em sofrimento, com a capacidade de processar informação muito limitada mas sabia o que aquilo queria dizer, fodasse! Isto não deveria ser dito deste modo… Tantos anos que um médico estuda e não lhes ensinam o mais básico dos básicos sentimentos da Vida, a Empatia, bem sei que isso não vem nos livros… mas fodasse! Ok, os médicos fazem apenas o trabalho deles que afirmo aqui também ter sido bem feito. Até consigo perceber que eu era só mais uma com um caso de aborto espontâneo, nada de novo para os outros, ainda para mais para quem lida com isto todos os dias. Só mais um caso para os outros, não para mim, para mim foi o primeiro. É aqui que está a grande diferença!

 

Veio outra médica, são precisas duas confirmações de que não há batimentos cardíacos. Ela atestou o mesmo, tristemente para mim, enquanto ouvia duas pessoas confirmarem o fim do meu bebé deu-me um nó bem apertado na garganta, não pela frieza do momento mas pela dor da perda, estava deitada na marquesa, os nós na garganta são mais difíceis de desatar se estamos deitados, não sei se já se aperceberam disso… Não consegui dizer nada. Apenas ouvi algo do género: isto é comum no 1º trimestre, as estatísticas não sei quê………….pode vestir-se!

 

As lágrimas corriam-me enquanto ouvia todas as indicações finais, saí com uma licença de maternidade de 30 dias que a Seg. Social paga a 100%, (ao menos nesta parte há alguma humanidade, podemos chorar a nossa perda em casa sem pensar na parte material da coisa);

Mas o fim não foi ali, será mais à frente e sabe-se lá ainda em que contornos…agora é esperar 15 dias para que o corpo faça a sua auto limpeza. Ao fim desse tempo volto ao hospital para a limpeza a fundo. Fodasse outra vez! Mais 15 dias de ansiedade, na melhor das hipóteses é claro. Mulheres temos mesmo de ser fortes para aguentar tanta provação e acreditem que Somos!!

 

Sou separada, depois dessa separação tive um “namoro” e engravidei. O assunto foi falado com o pai que manifestou a sua opinião mas aceitou a minha. A partir daí respeitou-me. No entanto de outros lados veio a pressão para retirar o meu bebé, para abortar, para “resolver”. Vieram ameaças, que não devo referir aqui, mas que me perturbaram bastante.

 

E porquê?? Porque não faço parte do grupo de pessoas com vencimento acima dos 1000 euros, porque conduzo um carro com 15 anos, porque não me sobra dinheiro no fim do mês, porque já tenho uma filha crescidinha e acham que por isso já satisfiz o desejo de ser mãe e porque estava agora a optar pela “loucura” de ser Mãe Solteira, (que seria com muito Orgulho). Ouvi coisas horríveis… Preconceitos, tudo preconceitos. Só de falta de Amor é que nunca ninguém me conseguiu acusar.

 

Uma grávida minha gente merece ser respeitada do princípio ao fim da sua gestação, é a Vida de um Ser Humano que está a ser gerada! Nos 1ºs meses há uma transformação enorme no nosso corpo, os nervos estão à flor da pele, é um momento crucial para o correcto desenvolvimento e formação do bebé e aqui as grávidas apenas precisam de cuidados de saúde e de paz, para poder gerar o seu filho. Não as persigam, é mau, é feio e irá trazer-vos um Karma negativo, não lhes dificultem a vida, ninguém tem esse direito.

 

Somos nós Mulheres que decidimos o que fazer, o corpo é Nosso, nós é que decidimos se queremos abortar ou não! Ninguém mas ninguém tem o direito de nos dizer o que fazer, muito menos de exercer qualquer tipo de pressão ou chantagem sobre nós. Fazer isso é crime, punido com pena de prisão. Esta pena está consagrada na Lei do aborto em Portugal.

 

Sei que são muitas as mulheres a passar por isto em todas as classes sociais, a tentativa de mandar no corpo de uma mulher é um problema transversal de há muitos anos na nossa e em muitas outras sociedades. Muitas mulheres acabam por ceder, na maior parte dos casos porque lhes falta apoio psicológico, apenas por isso, bem sei pelo que li e pelos testemunhos que ouvi que a maior parte se arrepende de ter cedido e passa a viver num inferno devido a essa decisão.

 

No meio deste turbilhão consegui procurar ajuda nos meus Amigos, e encontrei-a. Tive amigos incansáveis, tiveram atitudes incríveis, sempre prontos para me apoiar, sem julgamentos, sem querer apenas bisbilhotar, apenas solidários comigo e com a minha decisão. Agradeço-vos a todos de Coração, tenho os Melhores Amigos do Mundo!

 

Mulheres sempre que se encontrem numa situação delicada não se isolem, vão para a rua, procurem os amigos, alguns podem falhar mas a maioria não o fará, afastem-se dos que julgam e criticam, rodeiem-se apenas de quem vos quer bem.

 

As Mulheres que são Mães “solteiras”, não têm nada que as diferencie das outras mães, e se tivessem seria o facto de serem muito mais corajosas, estas Mães “solteiras”  merecem tanto como as outras ser olhadas de frente e ouvir a palavra Parabéns, pela gravidez, deixem de lado os preconceitos, vivam e deixem viver.

 

Eu perdi o meu bebé, não culpo ninguém além de mim mesma, quis ser sincera e contar a quem achei que devia consideração. Fiz mal, por conta disso fiquei desprotegida nestas 1ªas semanas tão importantes, andei extremamente enervada, sempre em sobressalto. A única coisa que tranquiliza o meu coração neste momento de dor é saber que não cedi, não baixei a cabeça, rezei muito, encarei todo o medo que senti e segui o caminho certo, o do coração, o do Amor e o da Fé.

 

E é contra este abuso sobre as mulheres e em homenagem ao meu filho que me exponho aqui, que exponho a minha vida e os meus sentimentos, que levanto a minha voz e uso este espaço para partilhar a minha má experiência, tenho certeza que o meu testemunho dará forças para lutar pelo menos a uma única mulher que seja, e por isso mesmo sinto que toda esta exposição faz sentido.

 

Da Ericeira para as Mulheres de todo o Mundo, com muito Amor

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De Chic'Ana a 09.02.2017 às 16:15

Lamento muito! É sempre muito doloroso.. chora, tens o teu tempo, expõe os teus sentimentos, tristeza, raiva..
Um grande beijinho. Estou aqui para o que precisares!

De Da Ericeira Com Amor a 10.02.2017 às 11:36

Muito obrigada pelas tuas palavras e apoio :) Beijinho Enorme

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